Assim caminhamos para uma nova fase do capitalismo

Atualizado: Abr 9

Muitos falavam em neoliberalismo até o momento. Marcada pela noção de que o Estado é um péssimo gestor e que somente atrapalha o bom andamento das leis do mercado, esta ideologia defende a liberdade econômica e conta com a “mão invisível” do mercado para garantir o bom funcionamento da economia - a lei da oferta e da procura e a livre concorrência seriam responsáveis por autorregular o mercado. Esta seria a fase do capitalismo vigente até então.No entanto, a recente crise de 2008 e a crise desencadeada agora pelo coronavírus nos mostra um distanciamento cada vez maior dessa corrente. Desta vez, inclusive, nos parece que, por conta dos posicionamentos recentes do principal defensor do liberalismo, o sistema econômico vigente na maioria dos países pode acabar tomando um novo caminho.

Contextualização

Após a crise de 1929, o sistema capitalista vivia uma das crises mais profundas da história. Para garantir a continuidade do mercado, o Estado interveio na economia com base nas teorias de John Maynard Keynes. O teórico defendia a intervenção do Estado na economia para evitar crises e garantir o consumo e o emprego. O sistema foi apelidado de Welfare State ou Estado de bem-estar social e também de Keynesianismo, em homenagem ao teórico.

Após esse período e após a recomposição da economia, na década de 1970, a Crise do Petróleo motivou uma nova resposta dos governos em relação a uma nova crise que se instalava: diminuir a intervenção do Estado na economia típica do Keynesianismo. Assim, a função do Estado passaria a ser de apenas garantir a infraestrutura básica e intervenção na economia somente em casos excepcionais, como em cenários de crise.

O que está acontecendo

O que vemos agora com a crise atual é a forte intervenção do Estado em todos os espectros da sociedade. Diversos governos editaram leis de “estado de guerra” para que pudessem justificar diversas ações econômicas e de controle social. Em alguns países, os Estados começaram a monitorar as pessoas por meio dos seus smartphones (em Israel e no Brasil, por exemplo) para tomar providências quanto àquelas que não respeitarem a imposição da quarentena. Outros implementaram páginas na web, nas quais os cidadãos deveriam solicitar um “salvo conduto” para sair à rua e realizar as compras necessárias – sem esta autorização, poderiam ser multados (no Chile, por exemplo).

Vemos também os bancos centrais dos principais representantes do liberalismo adotando medidas de intervenção na economia. O FED lidera essas ações com a promessa de que imprimiriam quanto dinheiro fosse necessário para lidar com a crise. Não só isso, agora o banco central americano começa com uma estratégia econômica denominada “repo” (recompra da dívida pública do país denominados em dólar com o compromisso de revenda posterior) junto a outros bancos centrais.Para completar, o FED ainda reduziu os juros da taxa oficial americana a valores próximos a zero (que variam de 0% a 0,25%).

Agora, em um aprofundamento das medidas intervencionistas, o governo símbolo do neoliberalismo econômico decidiu intervir na produção das empresas americanas para garantir o fornecimento dos produtos que a nação necessita. Não só isso, como também é acusado do crime de pirataria por países como Alemanha e França, seus antigos aliados.


O motivo dessa acusação seria o fato de ter desviado máscaras criadas pela empresa americana 3M de pedidos realizados por aqueles países para suprir a demanda nacional, mesmo após a ordem de compra ter sido realizada pelos iniciais destinatários. O pronunciamento público do presidente Trump para justificar a sua atitude lembra bastante uma antiga tática utilizada por países em tempos de crise, denominada de beggar thy neighbor (reduzir o vizinho a mendigo, em tradução livre) – o conceito remete a uma prática em que um país tenta remediar seus problemas econômicos por meio de medidas que tendem a piorar os problemas dos outros países. Segundo o presidente, “não queremos outros conseguindo máscaras”.

A tática do presidente americano preocupa estudiosos por ser um caso típico da teoria dos jogos denominado dilema dos prisioneiros. Em resumo, o dilema prega que dois presos são separados para interrogação e têm a oportunidade de entregar um ao outro para tentar diminuir sua pena.


No entanto, não fazem ideia de como o outro vai se comportar. Caso um entregue o outro e o comparsa faça o mesmo, ambos estarão na pior situação possível (presos). Caso apenas um entregue o outro, um deles poderá sair livre, enquanto o outro permanece preso. Na hipótese de nenhum dos dois entregar, ambos poderão sair em liberdade condicional. Contudo, como não conseguem se comunicar durante o interrogatório, o dilema é justamente se devem seguir uma atitude egoísta ou se devem tentar cooperar para garantir uma situação de maximização das vantagens do grupo. Se todos os Estados se comportarem de maneira egoísta, isso pode prejudicar a situação do grupo como um todo.

Para onde estamos caminhando

Estamos vendo um dos principais expoentes do neoliberalismo voltar às práticas do Keynesianismo. Ao mesmo tempo, outros países também passam a adotar medidas de intervencionismo econômico para garantir a isolamento físico das pessoas com o objetivo de diminuir a velocidade de propagação do coronavírus.

As medidas adotadas por estes países do ponto de vista econômico, mas também na política, evidenciam uma brusca virada de rumo do sistema vigente até então. Além das medidas mencionadas anteriormente, países aliados começam a aumentar os atritos entre si. Também cresce o atrito entre países ocidentais e orientais, na medida em que os primeiros começam a enquadrar a China como culpada pela disseminação e originação do que chamam de “vírus chinês”.

Enquanto tudo isso acontece, as empresas sofrem com a falta de receita ocasionada pelo isolamento físico e a imposição da quarentena. Essa falta de receita e a ausência de reservas para enfrentar uma crise resulta na demissão de pessoas pelo mundo inteiro.

No entanto, diferentemente de antes, agora estamos em um momento em que a digitalização está muito mais próxima do que antes. Essa crise, portanto, forçou a digitalização das empresas, pessoas e governos. Um processo que poderia levar anos teve que acontecer dentro de alguns dias. E isso teve repercussão em outras discussões que poderiam se arrastar ao longo de muito tempo – telemedicina, home office, abandono de ativos físicos, utilização de canais de vendas e distribuição digitais, discussões sobre a necessidade de uma renda mínima universal, dentre outros.


Como sabemos, as consequências no mundo digital tendem a vir de uma forma muito mais rápida e em uma escala muito maior do que quando éramos analógicos. Por essa razão, podemos aguardar mudanças profundas na sociedade após o período de confinamento forçado. Agora é a hora de analisar as tendências do mundo que vem a seguir.

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